Resenha Histórica

"Por deliberação da maioria absoluta dos chefes de família residentes nos 24 agregados populacionais que ocupavam a parte ocidental da freguesia de Vermoil, foi pedido ao governo que fizesse a demarcação de uma nova freguesia denominada Carnide, sendo a pretensão deferida por Decreto-Lei n. ° 38.808, de 1 de Julho de 1952, facto que determinou o actual condicionalismo tendente à gradual correcção económica e desenvolvimento demográfico da zona.
 
A designação toponímica ‹Carnide› advém-lhe originariamente de um “Carn”, tanque da purificação pertencente a um santuário drúdico do culto celta, que se localiza junto ao lugar de Carnide de Cima, nas margens da Ribeira do Pranto, o qual ainda no seculo XVIII era utilizado pelos vizinhos, para levarem o cereal destinado ao pão moído nas azenhas das linhas de agua do Vale do Feto e do Vale da Cruz.
 
No culto druídico, também se ƒilia a tradicional feitura de mezinhas, destinadas a cura de doenças, aplicadas com ritos místicos, pelas pessoas mais antigas ainda crentes nos seus efeitos mágicos inexplicáveis.
 
Em documentos arquivados na Torre do Tombo, designadamente na Carta testamentaria de D. Afonso Henriques, datada de 1167,  bem como no Foral de Leiria,  aparecem iniludíveis referências a ‹Carnedi›, tendo o topónimo antigo ‹Carnedo» evoluído para o actual ‹Carnide», obedecendo às gramaticais regras da semântica. Com este nome, é também referenciado o Rio Carnide que, nesta Freguesia tem a sua nascente mas que, depois de 36 quilómetros de leito, vai afluir ao importante Rio Mondego, muito próximo da Figueira da Foz.
 
Toda a correspondente bacia hidrográfica enriquece a fértil área rural da freguesia de Carnide, levando-nos a evidência as vinte e cinco bucólicas azenhas concentradas, das quais ainda algumas labutam, diariamente, desde o Vale do Feto até ao Vale Salgueiro, dando a paisagem, encantos de tranquila paz, onde a «sinfonia das rãs dos seus arrozais, mantém o coachar dos sapos, fazendo contrabaixo no harpejo dos rouxinóis, no afirmar do pároco Elias Ferreira da Costa transcrição do seu Boletim Paroquial.
 
A actual sede da Freguesia ergueu-se ao redor da imagem milagreira do profeta Santo Elias, Padroeiro com festa anual em 19 de Agosto, cuja velha capela foi resistindo até 1940, ano em que foi demolida para, no mesmo local, se levantar uma nova igreja, com altares de talha trabalhada em madeira por Timóteo Pereira Damásio.
 
Um pavoroso incêndio calcinou todo o templo, na manhã de 5 de Outubro de 1957 e, imediatamente, o Padre David Pedrosa Gaspar, auxiliado por toda a população, escolheu os prestimosos procuradores Manuel António, Joaquim Francisco, António dos Santos e Manuel Gaspar, que se lançaram a tarefa de angariação de fundos para a construção da actual Igreja Paroquial. A primeira pedra foi benzida e lançada em 30 de Maio de 196.5, sendo o templo inaugurado, solenemente, no dia 25 de Maio do ano de 1969.
 
Á comunidade católica de Carnide foi dada independência canónica em provisão datada de 24 de Setembro de 1953, da autoria de D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria, a cuja diocese pertencia desde 1543, como capelinha da paróquia de Vermoil.
 
O primeiro pároco nomeado foi o prior Manuel Pereira Júnior, natural da freguesia de Fátima pessoa a quem Carnide ficou a dever significativa dinamização, tanto no campo religioso como no campo profano, recordando -o com saudade e boa memória.
 
Depois do recente arrancar inicial da Freguesia, os seus habitantes denodaram-se em obras escolares, comerciais, industriais, sociais, precederam à electri?caçäo do território e à construção de redes de estrada, tendentes a uma total remodelação e modernização, a que não ficaram alheios, os emigrados, agora de regresso à sua terra natal.
 
Para evidenciar toda esta determinação apreciável, transcreve-se, do periódico paroquial Mais e Melhor, ano III n. 25 o seguinte:” o primeiro veiculo motorizado que entrou em Carnide, foi uma furgoneta conduzida por Manuel Ramos que, de Leiria, trazia vinho para o estabelecimento de José Pedrosa Cascalheira. Algum tempo depois, por outra serventia que passava pelo Moinho Velho, que subia a residência de José dos Santos e, dai ao Vale do campo, ligava ao Outeiro da Ranha; Manuel Rodrigues Galvão trouxe os materiais para a residência paroquial construída em 1953. 
 
Os materiais para as escolas, construídas um pouco antes, foram carregados em carros de bois. Veio, finalmente, uma primeira empreitada, no valor de 40 contos para a primeira terraplanagem da estrada, sendo todas as terras removidas a enxada. Assim, se arranjou maneira de ..furar.. até Carnide, porque para Carnide de Cima e Carnide de Baixo, apenas se podia passar no Verão e a única possibilidade era por dentro do ribeiro que bordeja estas povoações. Se, hoje, se vai de carro a todas as povoações e quase a todas as casas, já se tem uma ideia do sacrifício que este povo teve de fazer para sair do seu isolamento.”
 
Qualquer habitante de Carnide, interpelado sobre assuntos da sua terra, nos responde «Unidos seremos uma força capaz de mostrar que existimos, que temos necessidades, direitos, deveres, e assumimos a responsabilidade na construção dum Carnide melhor e maior»